O “efeito Trump” na taxa de juros: como irá reagir o Copom?

Em recente artigo publicado na edição do dia 10 de novembro do The Wall Street Journal, Greg Ip revela uma tendência pela elevação das taxas de juros com a recente eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Segundo o colunista, essa visão monetária também é compartilhada por outras lideranças políticas, como Theresa May, na Inglaterra, e o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, que atribui o crescimento eleitoral do partido populista Alternativa para a Alemanha em razão da insatisfação dos poupadores com os juros baixos.

No Brasil, a decisão monetária referente à taxa básica de juros (Selic) é tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil. Na última reunião do Comitê, o Copom decidiu reduzir a taxa de juros em 0,25% para 14% a.a., destacando duas situações igualmente relevantes. A primeira faz referência ao processo de estabilização da economia brasileira, mesmo com flutuações recorrentes. Uma segunda situação está vinculada à conjuntura internacional, destacando que a decisão de política monetária depende também de uma continuidade no ambiente “relativamente benigno para ativos de economias emergentes” e que “os membros do Comitê concordam em monitorar o ritmo de normalização da política monetária nos Estados Unidos”.

A visão relativamente confiante do Copom sobre à conjuntura internacional, entretanto, parece contrastar com a tendência observada por Greg Ip em seu artigo. Em regra, o aumento da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, reduz a atrativa dos investimentos em outras moedas, sobretudo pressionando o câmbio dos mercados emergentes. A consequência clássica dessa decisão é uma fuga de capitais aos Estados Unidos, por ser considerado um investimento mais seguro. Nesse cenário, um descuido na análise dos sinais políticos relativos à ascensão de políticos conservadores pode ser extremamente danoso para o crescimento econômico em outras economias.

O “efeito Trump” na taxa de juros americana, afora os efeitos cambias, tende a dificultar uma diminuição na taxa básica de juros no Brasil. A previsão, portanto, é de grande dificuldade política na aceitabilidade das decisões monetárias futuras. Se a taxa de juros norte-americana realmente subir e o discurso de Trump deixar de ser apenas retórica eleitoral, o Brasil poderá ser ver obrigado a aumentar ainda mais os juros visando atingir um cenário minimamente atrativo para o capital estrangeiro e controle da inflação. No entanto, isso causaria impactos altamente negativos na esfera econômica (principalmente no consumo e no investimento).

A atual ascensão de lideranças políticas populistas conservadoras pode significar uma alteração do paradigma monetário, com aumento da taxa de juros. A recente decisão do Copom traz um discurso otimista em relação à conjuntura internacional, que parece não mais se compatibilizar com as recorrentes declarações de algumas autoridades estrangeiras. Resta aguardar as próximas decisões do Copom para verificar os impactos da concretização dessa mudança de paradigma internacional na política monetária nacional.

Daniel Steinberg

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